... É só clicar no titulo do Blog, ( Em casa de poeta, o importante é sonhar!) que ele disponibiliza todo o conteúdo. Eu, acho que vale a pena. Acho também que a troca seria perfeita se deixassem um comentário, eu adoraria! Mara Araujo





segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Meu irmão dormiu...

Meu irmão dormiu... 
 

Sinto o vento batendo no rosto em tardes de Agosto. Penso muito te olhando... Pareces dormir dentro desta tua morte súbita, contrariando minhas ilusões e expectativas. Continue ai que o mundo passou... Vento que não venta mais, pra você que se acovardou. Foi, deixando olhares de espanto, solidariedade insolúveis batendo na nossa porta. Deixando bocas famintas e olhares compadecidos, mortais e amedrontados. Crianças tentando se recompor, mulher e mãe. Lembranças da infância, de roda pião, de fieira encardida, bolinha-de-gude, pic-esconde e campos de futebol. Risadas ingênuas e escancaradas. Lembrança de sol... Agora o dia cinzento me sopra seu nome, segredos comuns virados de pernas pro ar, subindo eucaliptos, descendo de bicicleta, andando de patinete e caindo de rolliman. Minhas ideias vagam distantes, lembranças de mães que choram a flor arrancada do ventre. Horas vivas, horas mortas ventos que não venta mais. Passado passando a limpo tirando o pó da vida. Passado despido, nu, ausente! Que desassossego este meu, diante deste teu sono intoleravelmente mortal. Resignada e alheia, assistindo o entrar e sair das pessoas que falam baixinho, respeitosos e atentas aquele instante coletivo de medo do amanha, ou daqui a pouco. Aquele medo onde a impotência vaza cheia de sensações e sentimentos férteis. Sinto pena de mim, do vazio que de repente descobri que sentia, que morava em mim e que era criança. Vontade correr do presente com pernas compridas, retroceder à um passado do qual vivemos e corremos juntos, sem saber para onde, e nos perdemos. Jogávamos pedrinhas, eu ganhava sempre, sem nada sabermos de nós. Passamos anos virando esquinas em caminhos individuais e obscuros, no desespero de querer se vivo, de integrar, sentir se igual, normal. Andanças diferentes na mesma busca desesperada de fazer parte de um todo real, sem precisar ficar na fila para ganhar pão, comida, roupas e presentes no Natal. Que nos reconheçam, não somos anônimos, somos pessoas, sonhamos também, queremos participar festejar... Sair da fila! Conhecemos o inferno mas não estamos mais lá. Agora, ando inquieta pelo caminho das almas enquanto você descansa e as pessoas te vigiam, como se você fosse sair dali. Uma súbita angústia se apossou de mim... Meu cérebro esta repleto de porquês... Porque você foi correndo, fugindo, largando tudo antes de conversarmos? Falávamos tanto à tempos atrás. Porque essa expressão inerte, mortal? Vontade de sacudir, te levantar pelos ombros te jogar no chão te empurrar , te chutar até você sair andando e dar risada para que eu sorria também. Isso foi maldade. Onde estão seus camaradas de pico, de crak, maconha, heroína e futebol? Circulando por ai sorrindo, fumando, cheirando e se picando por entre os túmulos. E você deitado ai com este círculo roxo no pescoço que mostra desespero que mostra impotência. Que desperdício! Você esta tão ironicamente morto que da vontade dar risada, mas se você sorrisse também... Esta tudo tão deserto, e sua ausência me bate na cara com punhos de ferro. Porque fomos mentalmente tão divergentes? Não éramos iguais, irmãos, não nos amávamos...? São silenciosos os caminhos que agora percorro com lembranças de você, de nós. Menino, moleque risada e lágrimas que muitas vezes foi o sal que nos alimentou, mas sonhávamos com um futuro melhor, mais colorido, com beijos comidas e sapatos para por nos pés. Você conseguiu hoje, no dia do seu aniversário, que ironia, foi o dia que você escolheu. Você não fará mais aniversários. Que belo presente  você se deu, que bela festa! Entre soluços, sorrisos, silêncios e fumaça. Você esta ai com a cara esgazeada, morto! Foi corrida, foi sofrida esta vida de drogas, embalos e rock-in-rool. Como se eu não sofresse... Nesta minha vida tão paradoxalmente normal, diante desta tua morte insensata, fraca, covarde. Neste caminho onde agora leio seu nome, a data do seu nascimento e o dia de hoje! E choro a última ilusão, choro a infância, os sonhos sonhados, enquanto você fica ai em total alheamento, dentro desta tua morte lírica, plena, ostensiva, cheia de mistérios e porquês. Nos nossos caminhos haviam flores de todos os nomes, cheiros e cores. As mesmas que agora enfeito seu corpo estéril de vida,. Simbolizando o absurdo de sermos... Passado!

Texto, dedicado ao meu irmão, ao amor e a todo vasto sentimento de saudades  que ele deixou, em um dia num instante qualquer... 
 Mara Araujo

   

Um comentário:

Jamil disse...

mara, esse poema é fantástico. parabéns...bravo!!!!